3.2.07
Perder pontos
2.2.07
Negócios da China
Condição humana
1.2.07
Lembrar o essencial:
Nem mais, nem menos
1. Eu incompetente me confesso para dizer aquilo que a sociedade civil – as famílias, as associações, as empresas, as escolas, as igrejas, os meios de comunicação social, os clubes, etc. –, assim como as diferentes expressões e poderes do Estado, deve fazer para criar um ambiente cultural, social, político e espiritual que estimule a alegria de ter filhos e de os educar com gosto. Eu incompetente me confesso para informar como é que isto seria possível, embora saiba que, enquanto ter filhos for um pesadelo, não adianta pensar muito no aumento da natalidade. O sacrifício pelo sacrifício é uma doença. Só o sacrifício que é fruto do amor possível é fonte de coragem. Mas é um exagero pedir às pessoas que desejam filhos viverem em permanente estado de heroicidade. Não adianta queixar-se da cultura hedonista pela falta de generosidade. Quando as empresas e as organizações, através de sofisticada publicidade, incitam aos prazeres mais imediatos e indeferíveis – casas de sonho, carros de sonho, férias de sonho –, teremos uma minoria regalada e a maioria acumulando desejos e decepções e adiando sempre, por estas e por outras razões, a altura para ter descendentes. Mas também incompetente me confesso para desenhar ou sugerir um modelo capaz de configurar uma outra sociedade viável.
2. Eu incompetente me confesso para sustentar que a hierarquia da Igreja fez bem ao entregar, apenas, às leis da natureza a regulação da natalidade: “A continência periódica, os métodos de regulação dos nascimentos baseados na auto-observação e no recurso aos períodos infecundos são conformes aos critérios objectivos da moralidade. Estes métodos respeitam o corpo dos esposos, estimulam a ternura entre eles e favorecem a educação de uma liberdade autêntica. Em contrapartida, é intrinsecamente má qualquer acção que, quer em previsão do acto conjugal, quer durante a sua realização, quer no desenrolar das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (1). João Paulo II repetiu até à saciedade esta herança: “As duas dimensões da união conjugal, a unitiva e a procriadora, não podem ser separadas artificialmente sem atentar contra a verdade íntima do próprio acto conjugal. (...) A Igreja ensina a verdade moral acerca da paternidade e da maternidade responsável, defendendo-a das visões e tendências erróneas, hoje, difusas.” Está muito consciente de que o Episcopado em união com o Papa é acusado de ser insensível à gravidade dos problemas actuais, de perder popularidade e ver os fiéis a afastarem-se cada vez mais da Igreja (2). Desde 1968, sobretudo por causa desta atitude perante os métodos contraceptivos, ouvimos com frequência um certo tipo de expressões: “sou católico, mas não sou praticante”; “deixei de ser católico ou não posso continuar a dizer-me católico, embora adira aos seus valores”; “Cristo sim, Igreja não”. Mas também há muitos que se guiam pela sua própria consciência, que resistem, digam ou não, “nós também somos Igreja”.
3. João Paulo II, na encíclica Evangelho da Vida (n.° 73), é peremptório: “O aborto e a eutanásia são crimes que nenhuma lei humana pode pretender legitimar. (...) Portanto, no caso de uma lei intrinsecamente injusta, como aquela que admite o aborto e a eutanásia, nunca é licito conformar-se com ela.” Parece-me que um Papa que estivesse de acordo com o aborto ou com a eutanásia devia pedir a sua demissão. No entanto, eu incompetente me confesso para, sob o ponto de vista jurídico, julgar se o Estado tem ou não direito a fazer leis que permitem o aborto. É saudável, é normal que a lei de um Estado laico não tenha que estabelecer o que é bem e o que é mal sob o ponto de vista religioso. Não desejaria ver os Estados europeus a adoptarem regimes equivalentes aos da Arábia Saudita ou do Irão: o Estado e a sociedade regidos pela lei ou pela ética religiosas. É por isso que talvez não seja um absurdo perguntar aos cidadãos, como agora, em Portugal, no referendo, se se deve responder “sim” ou “não” à despenalização da interrupção da gravidez, em estabelecimento de saúde, nas primeiras dez semanas, realizado a pedido da mulher. Não se trata de saber quem é e quem não é pelo aborto, neste prazo e nestas condições, mas quem é ou não pela penalização da mulher que aborta neste prazo e nestas condições. E inevitável a pergunta: dentro das dez semanas, já existe vida humana, ser humano ou pessoa humana? Sobre o que é a vida, sobre o que é vida humana, sobre o que é pessoa, as linguagens do senso comum, das ciências, das filosofias e das religiões não são coincidentes. E, no interior de cada um desses ramos do conhecimento, o debate não está encerrado. Para o padre Anselmo Borges, professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, “a gestação é um processo contínuo até ao nascimento. Há, no entanto, alguns “marcos” que não devem ser ignorados. (...) Antes da décima semana, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído. De qualquer modo, não se pode chamar homicídio, sem mais, à interrupção da gravidez levada a cabo nesse período” (3). A embriologia expressa no boneco chinês é uma pura fraude e uma obscenidade. Parece-me exorbitante ameaçar os católicos que votem “sim” com a excomunhão. Comparar o aborto ao terrorismo é fazer das mulheres aliadas da Al-Qaeda. A retórica deve ter limites. Creio que é compatível o voto na despenalização e ser – por pensamentos, palavras e obras – pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O “sim” à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, da cultura do aborto, embora haja sempre doidos e doidas para tudo. Eu, agora, competente me confesso para afirmar: quando, em Portugal, o aborto for obrigatório, abandono o país. Nem mais, nem menos.
(1) Catecismo da Igreja Católica, n.° 2370, citando a Humanae vitae, 14: AAS 60 (1968), 490.
(2) Carta às Famílias, n.° 12.
(3) DN, 21/01/2007. Sobre esta questão, cf. Miguel Oliveira da Silva, Ciência, Religião e Bioética no início da vida, Lisboa, Caminho, 2006, pp. 53-85.
31.1.07
Oxalá
Oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá
Oxalá, o passo não me esmoreça;
Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá,
Oxalá, o povo nunca se esqueça;
Oxalá, eu não ande sem cuidado,
Oxalá, eu não passe um mau bocado;
Oxalá, eu não faça tudo a pressa,
Oxalá meu Futuro aconteça.
Oxalá, que a vida me corra bem, oxalá.
Oxalá, que a tua vida também.
Oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá,
Oxalá, o povo nunca se esqueça;
Oxalá, o tempo passe, hora a hora,
Oxalá, que ninguém se vá embora,
Oxalá, se aproxime o Carnaval,
Oxalá, tudo corra, menos mal.
[Letra e Música de Pedro Ayres Magalhães, álbum "O Paraíso", interpretação dos Madredeus.]
Via SushiLeblon.
O feto
[publicado originalmente no Sim no Referendo]
Da memória: «A barbárie confessa de uma sociedade»
António Pires de Lima [pai] escreveu-o ontem no Público: "Saddam Hussein foi objecto de um homicídio autorizado legalmente: nisto consiste a execução da pena de morte. Admito que tenha cometido crimes da maior gravidade. Monstruosos e inumanos. Em minha opinião o facto de se lhe tirar a vida constitui, ou traduz, a barbárie confessa de uma sociedade que se considera a ela própria incapaz de promover, sequer tentar, a regeneração do responsável. [...] Enfim: teremos, em Portugal, o regresso ao tempo da destruição legalmente permitida de seres humanos, tal como quando aqui vigorava a pena de morte." O título deste artigo: «Por que voto não».
Mas vale a pena olhar para o baú da memória: em Agosto de 2002, [o mesmo] Pires de Lima [filho] veio admitir a reintrodução da pena de morte, num artigo de opinião no Diário Económico. No PortugalDiário tive ocasião de seguir a história. Recupero excertos.
"O dirigente do CDS/PP António Pires de Lima admite a pena de morte. Uma posição pessoal, que o seu partido não acompanha. Nem políticos, nem juristas, nem mesmo a Igreja se colocam ao lado do ex-deputado, que assume a sua condição de «católico praticante, politicamente incorrecto e religiosamente desadequado».
Pires de Lima defende que faz sentido ponderar a reintrodução da pena de morte em Portugal para crimes extremos, principalmente aqueles que envolvam crianças ou práticas de pedofilia. [...]
O PP já se demarcou da posição do seu dirigente, embora advogue sanções mais pesadas para estes casos. Fonte do gabinete de Paulo Portas disse ao PortugalDiário que «o presidente do partido sempre foi contra a pena de morte». [...]
Em declarações ao jornal A Capital de hoje [8/8/02], António Pires de Lima reafirma a posição assumida num artigo de opinião publicado na terça-feira no Diário Económico. Aí escreveu: «Apesar da desumanidade dos corredores da morte e do discutível acto moral de retirar a vida a alguém, é talvez esta a única forma de fazer justiça possível em casos destes [o crime de Inglaterra], honrando a memória das crianças mortas [Jessica e Holly]». [...]
António Pires de Lima lançou a polémica [no referido artigo] olhando para o "alto": «[Depois da condenação à morte,] Deus lá estará, para a todos julgar e perdoar aquilo que só Ele pode entender». [...]"
30.1.07
Pós-moderno
A pergunta
[publicado originalmente no Sim no Referendo]
[para memória futura, II]
[mais um comentário de resposta que pelos vistos não passou do crivo da moderação do Não; actualizado: este comentário foi publicado agora (30/1, 12h20), assim como a anterior "memória futura", muito depois de outros posts e comentários terem sido publicados.]
Prós e contras, mais isto
29.1.07
Prós e contras, apenas isto
[para memória futura]
Entre o comentário de VLX, às 12h34, e a minha pergunta das 16h42, deixei uma resposta ao seu comentário que não foi publicado. Insisto, porque deve ter havido uma falha técnica involuntária certamente.
Dizia eu que espero que VLX também gira bem na sua consciência, nos dias que correm, as mulheres que morrem por causa de abortos clandestinos ou das que se vêem atiradas para as urgências dos hospitais, com a actual liberalização do aborto. Espero que consiga gerir estes momentos o melhor possível. Eu vivo atormentado com isto, por isso quero a despenalização (que é o que se vota!) da mulher, nada mais, combatendo esta liberalização.
A liberalização do vão de escada que existe nos dias de hoje tem de acabar, e é isso que o Sim quer, com a proposta.
Espantos
28.1.07
«As sociedades podem mudar as leis, mas devem sempre aplicá-las»
Nem mais, nem menos
Parece-me exorbitante ameaçar os católicos que votem "sim" com a excomunhão. Comparar o aborto ao terrorismo é fazer das mulheres aliadas da Al-Qaeda. A retórica deve ter limites.
Creio que é compatível o voto na despenalização e ser - por pensamentos, palavras e obra - pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O "sim" à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, embora haja sempre doidos e doidas para tudo.
Eu, agora competente me confesso para afirmar: quando, em Portugal, o aborto for obrigatório, abandono o país. Nem mais, nem menos.» Frei Bento Domingues, hoje no Público.
Pequena polémica
«Eu não lhe perguntei o que achava do artigo, perguntei se não ia queixar-se de que era manipulação não surgir online o texto como se queixou da alegada manipulação do DN, na transcrição da missa de Marcelo.
Sobre a sua opinião sobre o frei Bento, revela muito sobre si e sobre alguns católicos neste referendo. Ah, sou católico e continuarei a ser Igreja também, por muito que lhe custe a si e a outros. Não aprendeu que não deve ajuizar da fé dos outros?!» [E adendou mais um treslimento. Deve ser estilo.]
«Jogo limpo, por favor»
Neve
27.1.07
26.1.07
Virgens puras
O estado do Ensino
25.1.07
Produção realista
[e com André Belo, Bruno Sena Martins, Carlos Abreu Amorim (CAA), Daniel Oliveira, Diogo Serras Lopes, Fernanda Câncio, Helena Matos, Ivan Nunes, Joana Amaral Dias, João Pinto e Castro, João Manuel Oliveira, João Sedas Nunes, José Mário Silva, Luís Carmelo, Luís Januário, Luís M. Jorge, maradona, Maria João Pires, Marta Rebelo, Miguel Abrantes, Miguel Vale de Almeida (MVA), Paulo Querido, Pedro Adão e Silva, Pedro Marques Lopes, Ricardo Araújo Pereira (RAP), Rui Tavares, Tiago Barbosa Ribeiro, Vasco M. Barreto e Vasco Rato.]
Pelo sim, claro.
Esta noite
24.1.07
Hèlas!
A rodar insistentemente cá em casa*
Óscares
Contadores
O George W. pronunciou, pela primeira vez - e apenas uma única vez - num discurso do estado da União, a expressão "climate change".
[isto segundo um fabuloso gráfico do New York Times]»
[in French Kissin']
23.1.07
Dos elogios
Babel
Equilíbrios
22.1.07
Ditadorzeco de valor acrescentado
Confiar
Abbé Pierre [1912-2007]
[Obrigado ao Pedro, sempre atento.]
21.1.07
Ética
Rajada de vento
1938-2007
dá o som lírico
às pás dos moinhos.
Somente as coisas tocadas
Pelo amor das outras
Credo (pessoal) para estes dias
O referendo sobre o aborto
«Numa questão tão delicada, com a vida e a morte em jogo, não se pretende que haja vencedores nem vencidos, mas um diálogo argumentado, para lá da paixão e mesmo da simples compaixão. Ficam alguns pontos para reflectir.
1. O aborto é objectivamente um mal moral grave. Aliás, ninguém é a favor do aborto em si, pois é sempre um drama.
2. A vida é um bem fundamental, mas não é um bem absoluto e incondicionado. Se o fosse, como justificar, por exemplo, o martírio voluntário e a morte em legítima defesa?
3. Para o aparecimento de um novo ser humano, não há "o instante" da fecundação, que é processual e demora várias horas.
A gestação é um processo contínuo até ao nascimento. Há, no entanto, alguns "marcos" que não devem ser ignorados. É precisamente o seu conhecimento que leva à distinção entre vida, vida humana e pessoa humana. O blastocisto, por exemplo, é humano, vida e vida humana, mas não um indivíduo humano e, muito menos, uma pessoa humana.
Se entre a fecundação e o início da nidação (sete dias), pode haver a possibilidade de gémeos monozigóticos (verdadeiros), é porque não temos ainda um indivíduo constituído.
Antes da décima semana, não havendo ainda actividade neuronal, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído. De qualquer modo, não se pode chamar homicídio, sem mais, à interrupção da gravidez levada a cabo nesse período.
4. Sendo o aborto objectivamente um mal, deve fazer-se o possível para evitá-lo. Tudo começa pela educação e formação. Impõe-se uma educação sexual aberta e responsável para todos, que, não ficando reduzida aos aspectos biológicos e técnicos, tem de implicá-los, fazendo parte dela o esclarecimento, sem tabus, quanto à contracepção.
5. O aborto é uma realidade social que nem a sociedade nem o Estado podem ignorar. Como deve então posicionar-se o Estado frente a essa realidade: legalizando, liberalizando, penalizando?
6. Não sem razão, pensam muitos (eu também) que, se fosse cumprida, a actual lei sobre a interrupção da gravidez, permitida nos casos de perigo de morte ou grave e duradoura lesão para a mãe, de nascituro incurável com doença grave ou malformação congénita e de crime contra a liberdade e autonomia sexual (vulgo, violação), seria suficiente.
7. De qualquer forma, vai haver um referendo. O que se pergunta é se se é a favor da despenalização do aborto até às dez semanas, em estabelecimentos devidamente autorizados, por opção da mulher.
Por despenalização entende-se que, a partir do momento em que não há uma pena, a justiça deixa de perseguir a mulher que aborta e já não será acusada em tribunal.
Aparentemente, é simples. Mas compreende-se a perplexidade do cidadão, que, por um lado, é a favor da despenalização - despenalizar não é aprovar e quem é que quer ver a mulher condenada em tribunal? -, e, por outro, sente o choque de consciência por estar a decidir sobre a vida, realidade que não deveria ser objecto de referendo. O mal-estar deriva da colisão dos planos jurídico e moral.
8. Impõe-se ser sensível àquele "por opção da mulher" tal como consta na pergunta do referendo, pois há aí o perigo de precipitações e arbitrariedades. Por isso, no caso de o "sim" ganhar, espera-se e exige-se do Estado que dê um sinal de estar a favor da vida.
Pense-se no exemplo da lei alemã, que determina que a mulher, sem prejuízo da sua autonomia, deve passar por um "centro de aconselhamento" (Beratungsstelle) reconhecido. Trata-se de dialogar razões, pesar consequências, perspectivar alternativas. A mulher precisará de um comprovativo desse centro e entre o último encontro de aconselhamento e a interrupção da gravidez tem de mediar o intervalo de pelo menos três dias. As custas do aborto ficam normalmente a cargo da própria.
O penalista Jorge Figueiredo Dias também escreveu, num contexto mais amplo: "O Estado (...) não pode eximir-se à obrigação de não abandonar as grávidas que pensem em interromper a gravidez à sua própria sorte e à sua decisão solitária (porventura na maioria dos casos pouco informada); antes deve assegurar-lhes as melhores condições possíveis de esclarecimento, de auxílio e de solidariedade com a situação de conflito em que se encontrem. Sendo de anotar neste contexto a possibilidade de vir a ser considerada inconstitucional a omissão do legislador ordinário de proporcionar às grávidas em crise ou em dificuldades meios que as possam desincentivar de levar a cabo a interrupção".»
20.1.07
19.1.07
Os criminosos

[Actualizado: só hoje li no DN de ontem, que Mira Amaral e António de Sousa afirmam não ter recebido o dinheiro porque saíram por iniciativa deles da Caixa, não foram postos a andar; não os iliba de o seu contrato prever que seriam demasiado bem ressarcidos se tivessem sido convidados a sair; ressalvas: os administradores que saíram ganharam 4,2 milhões de euros, os ministros assinam contratos ruinosos, sem serem responsabilizados por isso.]
18.1.07
Aparador
Cunhal, Soares e a liberdade
Fosse o Sócrates... (II)
[título, que remete para post anterior, e sublinhados da nossa responsabilidade]
Astros

[Ontem, o Erradio também fez um ano, mais uma coincidência a assinalar. E cumpre-me agradecer os parabéns nas caixas de comentários e noutros blogues. E estas convergências de interesses, mesmo sem saber.]
17.1.07
17 de Janeiro
Eis um dia que pode ser recordado por muitos motivos.
Escuso de vos impingir a lista completa, que podem sempre consultar na Wikipédia, mas é sempre bom saber que neste dia, em 1462, foi descoberta a ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, ou que, em 1562, Francisco I assinou um édito que terminou com a perseguição religiosa e reconheceu o direito civil dos protestantes franceses. Ainda nas coisas boas, lembre-se o primeiro livro da Penguin, lançado em Inglaterra, em 1935, e que, um ano depois, se publicou a primeira tira da BD "Fantasma", pela pena de Lee Falk.
Neste dia, em 1975, coincidência interessante nestes tempos, entra em vigor em França a lei de despenalização do aborto elaborada pela ministra da Saúde Simone Veil.
Já bem próximo de nós, em 1991, uma grande coligação liderada pelos Estados Unidos inicia o bombardeamento maciço do Iraque, para obrigar o regime de Saddam à retirada do Kuwait. As guerras marcam, aliás, este dia: em 1945, também os nazis começaram a evacuar Auschwitz, numa tentativa de encobrir os crimes contra a humanidade que ali se cometiam.
Neste dia, ainda, morreram algumas pessoas que fizeram os nossos dias e as nossas histórias, só para citar anos mais recentes: Miguel Torga, em 1995, Camilo José Cela, em 2002, Bezerra da Silva (cantor e compositor brasileiro), em 2005, no mesmo dia em que morreram ainda o político chinês Zhao Ziyang e a actriz americana Virginia Mayo. Para compensar, nasceram Benjamin Franklin (1706), Al Capone (1899), Muhammad Ali (1942), Jim Carrey (1962 ), Andy Rourke, o baixista dos Smiths (1964). Para adoçar, neste dia, em 1982, também nasceu Mel Lisboa.
Este é o dia do Tribunal de Contas da União Europeia, vá lá saber-se porquê, e de Santo Antão, que morreu nesta data em 356.
Curiosamente, segundo a Wikipédia, nada de relevante aconteceu a 17 de Janeiro de 1972 (nem eventos históricos, nem nascimentos ou mortes relevantes), naquele que é o 17º dia do ano no calendário gregoriano. Que sabe a Wikipédia?! Pelos vistos, ignora que dois marujos nasceram neste dia, tal como o Popeye muitos anos antes.
16.1.07
Geração de 70
ou então casou, ou então mudou, ou então morreu, já se acabou.
A minha geração de hedonistas e de ateus, de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas, e de autistas estatelou-se docemente contra o céu.
A minha geração ironizou o coração, alimentou a confusão,
brincou às mil revoluções amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.
A minha geração só se comove com excessos, com hecatombes,
com acessos de bruta cólera, de mortes, de misérias, de mentiras,
de refelxos da sua funda castração.
A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso,
e um belo dia esqueceu tudo e fez-se à vida
na cegueira do comércio.
A minha geração é toda a minha solidão, é flor de ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício, toda vício, toda boca
e pouca coisa na mão.
Vai minha geração, ergue a cabeça e solta os teus filhos no esplendor
do lixo e do descuido, deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência vai
corroendo a doçura da sua infância.
Vai minha geração, reage, diz que não é nada assim,
que é um lamentável engano, erro tipográfico, estatística imprecisa, puro
preconceito, que o teu único defeito é ter demasiadas
qualidades e tropeçar nelas.
Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente que és por demais
inteligente para sujar as mãos neste velho processo, triste traste de Deus,
de fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhores do que antes.
Vai minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada,
com medo de ser inventada, o que é que te falta agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração
ou só te resta morrer desintegrada?
Mas, minha geração, valeu a trapaça, até teve graça,
tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto copo,
e a comida estava óptima! O que vamos fazer?
JP Simões, «1970 (Retrato)».
Meti-me com os lobos
[comentário deixado ao post de Rui Tavares, que reproduz o seu artigo Na Cova dos Lobos, Blitz, Nov/06]
Do aborto, uma história exemplar
Os globos
[Ah: Babel foi o vencedor. Ainda não vi, vou gostar de ver.]
Globos de ouro (ao minuto): fomos ao tapete!

15.1.07
Públicos do público
Bimby, com muito gosto
Tão pouco que é muito
TÃO POUCO QUE É MUITO
José Manuel Pureza
O que está em jogo no referendo do próximo dia 11 é muito pouco. É só isto: decidirmos se a resposta da sociedade portuguesa às mulheres que escolhem, em consciência, abortar até às 10 semanas deve ser o tribunal e a prisão. Só isto.
Mas tão pouco é afinal muito. Votar SIM neste referendo significa contrapor à solução prisional um compromisso sério para com políticas que garantam o primado da maternidade e da paternidade responsáveis. É aviltante a desfaçatez com que tantos daqueles que querem que a solução prisional se mantenha vêm agora cantar hinos ao acesso das mulheres aos métodos anti-concepcionais. A rigidez sizuda que os leva a serem favoráveis à solução prisional é a mesma que sempre os fez repudiar, apesar de tanto fingimento, os mais básicos métodos anti-concepcionais, incluindo o próprio preservativo. Nós votamos SIM porque nos repugna a concepção da maternidade como uma fatalidade biológica. A maternidade e a paternidade são projectos de transcendente importância afectiva e social para as mulheres e para os homens. Por isso, só podem ser projectos totalmente queridos. Uma gravidez indesejada não é um projecto, é uma pena. Votamos SIM porque encaramos a gravidez como um projecto de amor e de responsabilidade partilhada e só assim a entendemos.
Tão pouco é afinal muito. Votar SIM neste referendo significa contrapor ao fundamentalismo punitivo a prática activa da tolerância como regra mínima da democracia. É tempo, e mais que tempo, de pôr fim a esse buraco negro da democracia em Portugal que é a criminalização de uma parte da sociedade por outra, em nome da moral. Nas democracias não há morais oficiais. Muito menos de raíz confessional. Nas democracias não há direitos clandestinos. Votamos SIM porque não fingimos que não há um conflito de convicções que divide profundamente a sociedade portuguesa. E, porque não fingimos, só temos um dogma: o do respeito pelas convicções íntimas de cada um e cada uma. E nisso somos mesmo intransigentes.
Tão pouco é afinal muito. Votar SIM neste referendo significa, acima de tudo, uma solidariedade densa para com as mulheres que, no quadro de um exercício muito difícil de ponderação, entendem não estar em condições de levar por diante uma gravidez. Votar SIM significa reconhecer a todas as pessoas – mulheres e homens – aquilo que as torna seres adultos: a elementar autonomia de consciência para tomar decisões difíceis. Votar SIM é exprimir uma atitude de confiança nas mulheres e na adultez das suas decisões. Votamos SIM porque queremos que as mulheres que decidem não interromper uma gravidez não desejada o façam sempre por razões de consciência e não por medo de serem presas. Não sei se votar SIM é moderno. Nem me importa. Sei que é solidário e justo. E isso me basta.
Ontem mesmo, um alto dignitário da hierarquia católica disse o que havia para dizer: “a um drama não se responde com outro drama”. Tem toda a razão, Senhor Bispo. É por isso mesmo, por tão pouco que afinal é tudo, que é preciso votar SIM no próximo dia 11 de Fevereiro.
[Outro texto colectivo, também com a participação de JMP, para ler: A interrupção voluntária do diálogo; e uma diatribe antiliberal minha: A clínica do vão de escada.]
14.1.07
Hindu rap
13.1.07
12.1.07
O George Michael escreveu-me
O pedido manhoso final, digno de prisões em casas-de-banho públicas, ainda podia repor alguma dose de escândalo, mas já não acreditava que pudesse ser ele, George, o Michael: «I will be waiting for your reply as you finish reading this message with your direct telephone number to enable me call you immediately and furnish you with more details, upon my confirmation of your willingness to assist me.» A fechar, «Best Regards, George Michael». Para ti também, pá.
Piada de bom gosto
Os cegos vêem
[in (T)ralha, há dois anos sem estar às escuras. Uma boa luz, com Thomas Newman, discreto, a tocar Any other name.]
Fórum
[Actualizado: já está respondido nos comentários, pelo bom JPT]
11.1.07
Primeira mão
Gloo-gloo-gloo-gle
Mais música
Tomar nota
10.1.07
Notícias fresquinhas
Gostar
v. int.,
achar bom gosto ou sabor;
sentir prazer;
fig.,
ter afeição, amizade;
simpatizar;
ter propensão;
v. tr.,
experimentar;
provar;
saborear.











