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9.1.08

...

[O Correio do Vouga pediu-me um texto sobre o Olímpio. Saíram estas palavras.]

Morreu o Olímpio. Desculpem a notícia crua, seca. Foi assim que a recebemos, é sempre assim que a sentimos. Um murro no estômago. Não a soube dar de outra maneira aos amigos, não a consigo partilhar de outro modo convosco, aqui nas páginas do jornal da diocese que o viu nascer e crescer.
Há uns vinte e poucos anos, o miúdo franzino, de Águeda, começou a aparecer pelo Secretariado da Juventude, no seu centro permanente, levado pela mãe Adélia. De quem com ele conviveu então sobram memórias difusas, mas já lá estava o sorriso do tamanho do mundo, o humor e a timidez.
Hoje, muitos anos depois, o Olímpio paginava livros e revistas (ou o convite de casamento mais bonito do mundo, também por causa dele, desculpem-me a imodéstia), o homem da sombra que assinava em letras pequeninas arrumadas por ele nas fichas técnicas – que, porventura, nunca lemos – de livros e revistas em que punha tanto cuidado. Este cuidado foi o mesmo que descobrimos, anos antes, no Movimento Católico de Estudantes (MCE). E também na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se candidatou aos órgãos de gestão, numa lista que fez da irreverência a sua marca. Era também a dele. Irreverente, inconformado, sempre curioso – a fé constrói-se na dúvida, ele vivia-a assim.
No MCE, primeiro em Coimbra, depois em Lisboa, já na Equipa Nacional, o Olímpio tratou de nos ensinar – olhar as coisas de modo diferente, pôr solenidade e risco nos gestos pequenos dos dias e dos trabalhos. Ou como disse o padre Tolentino Mendonça, na sua missa (lembrado pelo encenador Jorge Silva Melo, num texto no “Público”, 4/01/08), “não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros”. É assim que olho para um percurso pessoal e afectivo que se cruza com a nossa caminhada em movimento, no MCE, na Igreja, ou fora destes, na vida comum que fomos partilhando, nos livros e discos e filmes que descobrimos a dois, ou que ele – tantas vezes, descubro agora – me deu a ler, ouvir ou ver. Tinha um entusiasmo juvenil delicioso a falar de um poema lido, de uma cena vivida ou de um som escutado, e dizia-nos desse entusiasmo. Era impossível ficarmos indiferentes. As noites longas de leitura de livros, maliciosos e deliciosos, ou de audição de discos quase clandestinos (há uma geração do MCE que lhe deve o “FMI” de José Mário Branco, trauteado como senha).
O Olímpio, disse Tolentino Mendonça, “encontrava o justo espaço para a palavra na página”. Assim foi a sua vida, mal contada por mim. Faltam-me as palavras certas para o espaço justo. O amigo que vi partir abruptamente no dia 30 de Dezembro deixou-nos uma memória maior que a morte – uma memória como projecto. Ele pegou nesta simples expressão (do Edgar, se bem lembro, outro “compagnon de route”) e deu-lhe um significado, com a sua vida. No MCE, nas coisas que vivemos, nas viagens pelo país a contactar com os militantes, ele pedia que vivêssemos também essa memória: a sua exigência em desenhar com esmero um simples folheto de um encontro diocesano ou nacional; as suas anedotas (“o melhor contador do mundo”, insistiam os amigos por estes dias) para resgatarem momentos duros de debate.
Depois seguiu caminho – sempre atento às coisas da política, das artes, das letras, que é outra forma de estar atento à Cidade, que é outra forma de expressar as suas dúvidas, a nossa fé. Enamorou-se da Mariana, encantou-se com os dois filhos, o Miguel e o André. Nós, os amigos, ficamos com a memória das suas palavras. A mim faltam as palavras para dizer adeus. Sem nunca dizer adeus.

4.1.08

1967-2007, Olímpio Ferreira - Um homem que fazia livros [esta imagem vinha com o e-mail do Zé Carlos, esta manhã: «Soubemos pela Sara que vem hoje um artigo no Público sobre o Olímpio, que segue em anexo, caso ainda não o tenham. Faltou dizer que era o mais brilhante contador de anedotas que alguma vez ouvimos...» Para ler, clicar na imagem.]

20.10.03

Outubro ou nada

O Zé escreveu melhor que eu, logo aqui em baixo - sobre Montalbán. Faltava, no meu breve "obituário", a nota pessoal: sim, foi pela mão do Olímpio, mas também do Zé, que mergulhei na Barcelona e no mundo todo de Pepe Carvalho. Depois de Carvalho, veio o "resto", como «Galíndez», que ironicamente me tem acompanhado nos últimos tempos. Os amigos têm destas coisas: dão-nos a conhecer grandes pessoas. Bom dia, Zé. Bom dia, Olímpio. Bom dia.

1.1.08

Sem dizer adeus (oração)

«Para o Olímpio
[...] O paginador, quando dá por preparado um livro, está sujeito à mesma lógica unidireccional que nós: só pode avançar na ordem crescente, da primeira para a última página, fechando cada uma à sua vez e sem voltar atrás. Trabalha noite fora, tomando decisões que — ele sabe — irão afectar tudo o que está para diante, mas sem adivinhar muito bem como, nem de que forma.
A diferença notória é que este é um livro que não se fecha, e no qual todos ficamos a meio. Vamos acumulando eventos e perdendo tempo. Somos empurrados para a frente sem outra escolha. Vivemos algumas alegrias, se as houver. E, em geral, vamos ganhando um coração magoado e a lembrança carregada de saudades. É pelos amigos que ficaram para trás, mas que ainda traremos connosco para 2008 e os mais anos que restarem, sempre futuro adentro.»
Rui Tavares

7.3.08

É já amanhã

Homenagem ao Olímpio. De amigos, entre amigos, com música, talvez poesia, livros e anedotas. Será o que quisermos, e os amigos estão chamados.

Espalhem a notícia:
dia 8 de Março, às 22h na Padaria do Povo
Cooperativa Padaria do Povo (Campo de Ourique)
Rua Luís Derouet, 20 – 1º
1250-153 Lisboa

26.2.08

Homenagem

ao Olímpio. De amigos, entre amigos, com música, talvez poesia, livros e anedotas. Será o que quisermos, e os amigos estão chamados.

Espalhem a notícia:
dia 8 de Março, às 22h na Padaria do Povo
Cooperativa Padaria do Povo (Campo de Ourique)
Rua Luís Derouet, 20 – 1º
1250-153 Lisboa

8.3.08

Tanto Fogo e Tanto Frio

O último sonho do Olímpio.
A procurar nas livrarias,
as outras casas onde o encontramos.


homenagem
hoje, 8 de Março, às 22h na Padaria do Povo
Cooperativa Padaria do Povo (Campo de Ourique)

16.1.08

Olímpio

Mais textos para ler e guardar: este (extraordinário) do Daniel e este (de arrepiar) do Ivan. [E mais uma compilação de homenagens ao nosso amigo.]

3.3.08

O que importa

Homenagem ao Olímpio. De amigos, entre amigos, com música, talvez poesia, livros e anedotas. Será o que quisermos, e os amigos estão chamados.

Espalhem a notícia:
dia 8 de Março, às 22h na Padaria do Povo
Cooperativa Padaria do Povo (Campo de Ourique)
Rua Luís Derouet, 20 – 1º
1250-153 Lisboa

1.1.08

Sem dizer adeus*

O Olímpio encontrava o justo espaço para a palavra na página, o Alberto traçava a linha certa para ocupar o lugar. Aos amigos dos dois, resta-nos a memória das suas palavras e linhas. A mim faltam as palavras e as linhas para dizer adeus. Sem dizer adeus.

* - título pedido emprestado ao Rui, ontem no Público

4.6.08

Cinco

Estava longe de imaginar quando aqui cheguei há cinco anos. Éramos alguns, depois fomos ficando cada vez menos e menos - acabei eu. Mas, no fundo, este blogue continua a ser o dos amigos, da família, das coisas que gostamos, dos bons momentos que partilhamos. Estava longe de perceber que, pelo menos, umas 200 pessoas chegam aqui diariamente para ler ou ver ou ouvir as coisas que me passam pela cabeça, os olhares que lanço ao passear na cidade. É esta a minha janela - a Cidade. Que se faz de cores, alegrias. E dos olhares de tantos blogues, causas, lutas, amig@s nascid@s assim. Ou tristezas. O Olímpio, o Berto, o Nuno, o Avô - estava longe de chorar a sua ausência, mas que fiz, faço presente. Ou de me ter visto no desemprego. Não me imaginava a lutar contra a injustiça que só via longe-lá-longe às portas das fábricas do vale do Ave (os jornalistas que não calam as injustiças dos outros, sofrem tantas vezes as suas em silêncio). Aqui chegado, sublinho o facto: cinco anos. Não sei como serão novos cinco, se daqui a cinco estarei a escrever isto, ou nada. Se ainda aí estiverem, obrigado. Até já. Para mais uns tempos, os tempos que forem.


[actualizado: O Daniel destaca a Cibertúlia hoje, como blogue da semana. Um reconhecido muito obrigado.]

11.3.06

Estranho num livro estranho



Está um tipo descansado na livraria a gozar uma folga e tem um sobressalto. O Rui Tavares tem novo livro - Pobre e Mal Agradecido, na Tinta da China -, com uma capa deliciosa, idêntico esmero na edição (composta pelo amigo Olímpio) e curto e humorado prefácio do fedorento RAP. Daí só vem bem ao mundo.
Lá dentro, recolhas de textos publicados na imprensa, um inédito e posts recolhidos no Barnabé. Explica-se o Rui que os textos bloguísticos vivem da polémica e que, porventura, o melhor é consultar o arquivo do blogue do alegre funeral para perceber ao que foi o autor. O pior é aqui: o Rui escreve muito bem, mesmo quando não concordo com ele. E escreveu muito bem sobre os crucifixos nas escolas. Eu, enxofrado com algumas idiotices que se diziam de um lado e outro, comentei com fraco argumentário e pior exemplo. Levei, e bem, por tabela. Mas a coisa caiu no esquecimento da blogosfera, que dispara mais rápida que o Lucky Luke. Até agora... O Rui recuperou o texto, postou-o no livro.
Por mim, comprei um exemplar, na esperança de que seja menos um a ler a rabecada certeira. Pobre e mal agradecido, é o que sou.

30.1.06

Jim Henson meets The Monty Python

Internet is for porn! Ouçam a letra! Ouçam a letra!

[obrigado ao Olímpio, pela dica]

17.1.08

Aos 36

É preciso tremer para crescer
- escreve René Char, numa antologia que há 12 anos o Olímpio me ofereceu neste dia, dizendo que era uma colecção de poemas fora de moda.

25.1.05

Um Barnabé muito culto

"Velho amigo, brilhantíssimo paginador do livro do Barnabé, tipógrafo, fonógrafo, daltónico. Também é pai – ora toma. É o gajo mais culto do Barnabé, razão pela qual diz que não sabe se vai escrever. Será o nosso director artístico". De quem fala o Barnabé? Do Olímpio, nosso compincha de muitas andanças e comentador à distância desta casa. Agora, disponível ali nos amigos barnabitas.

15.6.04

Outras alegrias

1. O Miguel nasceu. No sábado passado. A Mariana e o Olímpio também poderão viver agora ao sabor do horário de Nova Iorque, como o Tiago*.

2. O Nuno doutorou-se: não percebi nada, mas gostei muito.

* - ver "post" «Breve confissão de um pai», de 11/5.

3.10.03

Hás-de ter muitos amigos...

«Aqueles que me conhecem melhor sabem que, toda a minha vida, nunca fiz um favor a quem quer que seja», Pedro Lynce, ministro demissionário, 3.10.2003.

["posta" sugerida pela Mariana e pelo Olímpio]

Hope in a darkened shop

Descubro (obrigado, Francisco, que me levou até às informações originais de Mário Filipe Pires, Alberto Gonçalves e jmf) que, finalmente, Virginia Astley pode ser encontrada nos escaparates de algumas discotecas a preços razoáveis.
Explico: até hoje só encontrava importações japonesas a rondar os cinco contos de «From Gardens where we feel secure» e «Hope in a darkened heart», dois discos obrigatórios em qualquer discoteca. Agora, pelos vistos, «From Gardens where we feel secure» já aparece por aí num preço "normal" (eu que só o tenho em K7, gravado do LP velhinho do Olímpio, outro entusiasta do álbum).
Falta «Hope in a darkened heart» (a ser reeditado em breve), que conheci antes: o primeiro LP que comprei, com o meu dinheirinho amealhado e sem a "tutela" seventies de irmãos mais velhos, e onde descobri - maravilhado! - outra voz: David Sylvian, que (felizmente) tem a discografia toda disponível em CD (e na minha estante, onde também mora «Colossal Youth» dos Young Marble Giants, comprado uma vez na FNAC na inevitável secção de promoções, que se confunde nalguns poucos casos com a secção de «esquecidos/desconhecidos»).

A blogosfera também se faz de cumplicidades: obrigado ao Aviz, ao Homem a Dias, ao Terras do Nunca e ao Retorta (um blogue obrigatório, descubro também agora), pelo regresso a Virginia Astley. Tenho de estar atento nas minhas visitas à FNAC.

3.4.08

Abril sempre (um texto que foi escrito, assim, de um só jorro). Para o Olímpio, de novo

«Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto. Chama-se FMI. Quer dizer: Fundo Monetário Internacional. Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos... É o internacionalismo monetário!

FMI
Cachucho não é coisa que me traga a mim mais novidade do que lagostim Nariz que reconhece o cheiro do pilim Distingue bem o Mortimore do Meirim A produtividade, ora aí está, quer dizer Há tanto nesta terra que ainda está por fazer Entrar por aí a dentro, analisar, e então Do meu 'attachi-case' sai a solução! FMI Não há graça que não faça o FMI FMI O bombástico de plástico para si FMI Não há força que retorça o FMI Discreto e ordenado mas nem por isso fraco Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco Enfio uma gravata em cada fato-macaco E meto o pessoal todo no mesmo saco A produtividade, ora aí está, quer dizer Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder Batendo o pé na casa, espanador na mão É só desinfectar em superprodução! FMI Não há truque que não lucre ao FMI FMI O heróico paranóico 'hara-quiri' FMI Panegírico, pro-lírico daqui Palavras, palavras, palavras e não só Palavras para si e palavras para dó A contas com o nada que swingar o sol-e-dó Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas Sempre atentas E levas pela tromba se não te pões a pau Num encontrão imediato do 3º grau! FMI Não há lenha que detenha o FMI FMI Não há ronha que envergonhe o FMI FMI... Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandhi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta desestabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transacção e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? A-ni-qui-bé-bé, a-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho? A one, a two, a one two three FMI dida didadi dadi dadi da didi FMI... Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversivelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não desestabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da PIDE pá, Tarrafais e o carago, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ahn? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, A, venha ver o que isto é, E, o barulho que vai aqui, I, o neto a bater na avó, O, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah? FMI Dida didadi dadi dadi da didi FMI... Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marrazes, Marrazes, fora o árbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de polícia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Deng Xiaoping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-chula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, desopila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grândola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.»

José Mário Branco - FMI
(via João, e com a ajuda da João para o áudio)